Foto: Divulgação/Alstom
Com mais de 15 quilômetros de extensão e 15 estações, a Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo é primeira linha 100% subterrânea da cidade, marcando um novo capítulo na engenharia de túneis do Brasil.
A obra, apontada como uma das maiores escavações da América do Sul, começou a operar parcialmente em julho de 2026. Seis das 15 estações previstas estão em operação: João Paulo I, Freguesia do Ó, Santa Marina, Água Branca, Sesc Pompeia e Perdizes.
Jean Pierre Ciriades, presidente do CBT, destacou em entrevista os principais benefícios da obra e o papel que ela representa para o futuro das cidades brasileiras.
Ligando o bairro da Brasilândia, na Zona Norte, à estação São Joaquim, no Centro, a Linha 6-Laranja faz conexão direta com a Linha 1-Azul, ampliando a integração entre diferentes eixos da cidade. Segundo Ciriades, essa é uma tendência que vem se consolidando no metrô paulistano.

“Essas integrações estão ocorrendo e isso é muito benéfico para a cidade. Até algumas décadas atrás, tínhamos basicamente duas linhas, a azul e a vermelha. Hoje, esse tipo de conexão permite que as pessoas realmente consigam sair da sua origem e chegar ao seu destino, em diferentes regiões da cidade “, explica o presidente do CBT.
Quando estiver operando por completo, a linha deve transportar mais de 600 mil passageiros por dia, um contingente equivalente à população de uma cidade média se deslocando diariamente por baixo da terra.
Um dos maiores impactos de uma linha de metrô, segundo Ciriades, é a redução drástica do tempo de deslocamento. Trechos que hoje levam mais de uma hora e meia em horários de pico, de ônibus ou carro, devem cair para cerca de 25 minutos com a linha em operação plena.
“Isso é tempo devolvido para as pessoas. Em vez de estar perdendo tempo no trânsito, seja no carro, seja no ônibus, a pessoa pode estar estudando, investindotempo com a família, descansando”, afirma.
A linha também ficou conhecida como “a linha das universidades”, por conectar instituições como PUC-SP, Mackenzie, FAAP, UNIP e FMU. Para Ciriades, esse é um ganho especialmente relevante para os jovens, além de reduzir a pressão sobre a infraestrutura viária da cidade.
Para o presidente do CBT, obras como a Linha 6 mostram que o espaço subterrâneo não deve ser visto como algo secundário, mas como uma verdadeira extensão do território urbano.
“O subsolo não é um espaço para ser esquecido. Ele é uma nova camada de cidade que a gente tem que pensar”, diz Ciriades, citando exemplos internacionais como Singapura e Malásia, onde o planejamento urbano já incorpora múltiplas camadas subterrâneas de infraestrutura.
Segundo ele, tirar veículos, poluição e ruído da superfície e direcioná-los para o subsolo é um passo essencial para construir o que o urbanismo chama de “cidade para pessoas”, espaços pensados para quem vive a cidade, e não apenas para a circulação de automóveis.
Um dos aspectos da Linha 6 é o modelo de parceria público-privada (PPP) adotado pelo Governo do Estado de São Paulo em conjunto com a construtora Acciona. Diferentemente de outras linhas, a mesma concessionária responsável pela construção também será responsável pela operação da linha nas próximas décadas.
Para Ciriades, esse modelo traz vantagens técnicas importantes. “Quando quem constrói sabe que também vai operar por muitos anos, as decisões de engenharia potencialmente mudam. Você projeta pensando em durabilidade, manutenção e conforto de quem vai usar aquilo todos os dias. Existe uma sinergia de interesses”, avalia.
A construção da Linha 6 também é marcada por desafios técnicos significativos. A estação Vila Penteado, por exemplo, está entre as mais profundas da América Latina, com mais de 60 metros de profundidade, o equivalente a um prédio de 15 andares enterrado no subsolo.

Foto: Divulgação/Linha Uni
Segundo Ciriades, a obra contou com tuneladoras de grande porte, atuando em solos de geologia muito variada, além de sistemas modernos de ventilação, automação e controle. A técnica de poços secantes de grande diâmetro, já consolidada no Brasil, também foi amplamente utilizada.
“Já começamos com esse tipo de solução há muito tempo aqui no Brasil, mas ela tem sido utilizada de maneira muito exitosa nas nossas linhas de metrô, a Linha 6 em particular”, destaca.
Esta é a primeira de uma série de matérias que o CBT publicará sobre a Linha 6-Laranja, com entrevistas a projetistas, construtores e representantes envolvidos no projeto.

