O presidente do Comitê Brasileiro de Túneis e Espaços Subterrâneos (CBT), Jean Pierre Ciriades, avalia que o túnel é a melhor solução para o trecho do Morro dos Cavalos, na BR-101, em Santa Catarina. Em entrevista em vídeo à equipe de comunicação do CBT, ele afirma que a obra deve trazer ganhos imediatos em segurança viária e tempo de viagem.
Na conversa, Ciriades relembra o histórico do projeto, explica por que o túnel prevaleceu sobre outras alternativas de traçado e usa os resultados de rodovias que passaram por obras semelhantes para dimensionar os benefícios esperados. Ele também trata da complexidade técnica da obra e da expectativa da comunidade de engenharia subterrânea.
O projeto do Morro dos Cavalos acompanha a trajetória profissional de Ciriades. “Esse projeto já tinha passado pelas nossas mãos ainda no meu primeiro escritório de engenharia. Eu estou falando de coisa de 20 anos atrás, pelo menos“, conta.
Segundo ele, a obra completa uma infraestrutura essencial no eixo que liga as regiões Sul e Sudeste pela BR-101. O túnel se soma a outros do mesmo corredor: o do Morro Alto, no Rio Grande do Sul, cujo projeto Ciriades liderou, e os do Morro Agudo e do Morro do Formigão, em Santa Catarina. “O que estava faltando era exatamente esse do Morro dos Cavalos“, diz.
O presidente do CBT lembra que o túnel tem desafios geológicos e geotécnicos e está inserido em um ambiente em que é fundamental o diálogo com as comunidades de povos originários que habitam a região. Por uma série de motivos, o projeto não saiu do papel até a recente decisão do Ministério dos Transportes, com a ANTT e o DNIT, de viabilizar a obra.
Ele associa a retomada do tema a um acidente grave ocorrido na rodovia, com mortes. “Esta obra nasce, de fato, decorrente de um incidente que ocorreu nas proximidades, por conta da ausência de um traçado mais moderno, de uma área duplicada.“
Em regiões de relevo acidentado como a do Morro dos Cavalos, explica Ciriades, um traçado moderno depende de pontes e obras de arte especiais. “Quando tiver a montanha no caminho, ou você corta ela, ou você faz túnel.“
Durante as discussões, chegou a ser considerada a alternativa de um traçado novo contornando a montanha, com cortes em talude e passagem por áreas da própria comunidade indígena, que se posicionou contra. Segundo ele, os envolvidos concluíram que o túnel era a melhor solução. “E não é porque a gente é do CBT. A gente defende sempre isso como solução de mobilidade, uma solução sustentável, ligada à resiliência climática e à resiliência geotécnica.“
Para ilustrar o risco das intervenções em encostas, ele cita os eventos de 2023 na região de São Sebastião. “Você está passando rasteira nessas montanhas. Uma hora vem uma chuva que você não previu, e a natureza vai responder.” O túnel, por outro lado, interfere o mínimo possível no maciço e permite um traçado mais moderno, como mostram a duplicação da Tamoios, a Serra do Cafezal, na BR-116, e a segunda pista da Imigrantes.
“São obras caras, com certeza absoluta. É difícil projetar túnel, é difícil construir túnel e é importantíssimo operar também. Mas, uma vez que isso está colocado como alternativa para a sociedade, os impactos positivos são imediatos”, afirma.
Sem números específicos para o Morro dos Cavalos, Ciriades usa como referência rodovias que passaram por intervenções parecidas. Na Serra do Cafezal e na Tamoios, segundo ele, a redução de acidentes foi da ordem de 89%, e a de acidentes com vítimas fatais caiu na mesma proporção. “O impacto em vidas humanas, que eu acho que é o bem mais importante que tem, se reduz vertiginosamente. A vida não tem preço.”
Ele lembra que a BR-116 era chamada de Rodovia da Morte. Com a duplicação e quatro túneis, houve redução expressiva de colisões frontais e de ocorrências como caminhões pegando fogo e atropelamentos.
O tempo de viagem é o segundo ganho. No trecho de descida da Serra do Cafezal, de 30 e poucos quilômetros, o percurso chegava a levar de duas a três horas por causa dos incidentes. “Com a via duplicada, com os túneis, o trajeto passou a ser feito em 20 minutos.“
A redução do tempo de viagem traz, segundo ele, benefício econômico, com menor consumo de combustível, menos emissões de gás carbônico e fretes mais rápidos, e benefício para as pessoas. “O caminhoneiro, no final do dia, quer estar em casa seguro, com os seus. Esses são benefícios estatisticamente inegáveis.“
Ciriades aponta que a obra enfrentará desafios geotécnicos, geológicos, de relevo e de encaixe do projeto viário. Ele avalia, porém, que as pessoas envolvidas conhecem esses desafios. “É um projeto que vai nascer com um nível de maturidade grande.“
Segundo o presidente do CBT, Santa Catarina tem se colocado como protagonista em espaço subterrâneo, com o Contorno de Florianópolis como exemplo e a discussão de um túnel imerso em Itajaí.
Ele relata ainda a demanda da população pela obra. Na Enseada de Brito, próxima à região, conhecidos costumavam cobrá-lo por ser do CBT. “A gente tem postulado bastante a respeito, mas infelizmente a gente não tem o martelo para bater. No que a gente puder incomodar e levar esse assunto sempre em pauta, a gente sempre fez.“
“As próximas matérias que a gente vai fazer vão ser dos desafios bem-sucedidos do projeto, da construção. E quando ele entrar em operação, vai ser um momento muito importante para a engenharia da região Sul e para a engenharia brasileira de uma maneira geral“, afirma.
A decisão de viabilizar a obra teve repercussão principalmente em mídias locais e regionais e em veículos especializados. Dentro do CBT, segundo Ciriades, a notícia recebeu ampla divulgação e foi recebida com entusiasmo. “Muita gente já querendo trabalhar no projeto, muita gente já pensando em trabalhar em obra, perguntando onde manda o currículo.“
Para ele, o projeto contribui para enfrentar a escassez de profissionais no setor, em um momento que considera positivo para a engenharia subterrânea brasileira. Embora atrasado em relação ao que se faz no mundo, o país segue a mesma tendência.
“Cada vez mais se entende que a utilização do espaço subterrâneo de forma racional, consciente, com bons projetos, proporciona benefícios que nenhum outro tipo de obra consegue entregar“, conclui.

