Nova linha do metrô de São Paulo construída de forma totalmente subterrânea, a Linha 6-Laranja apresentou desafios simultâneos nas áreas engenharia geotécnica, construção subterrânea, logística e inserção urbana, segundo a Acciona, empresa responsável pela obra, que respondeu a perguntas da equipe de comunicação do CBT (Comitê Brasileiro de Túneis e Espaços Subterrâneos). Apresentamos a seguir a entrevista.
Um traçado marcado por desafios de geologia e topografia
Segundo a empresa, os 15,3 quilômetros de extensão atravessam formações de solo e rocha bastante distintas, com lençol freático em cotas próximas à superfície em diversos trechos, o que exigiu soluções específicas de impermeabilização. Para reduzir incertezas, foi realizada uma das mais abrangentes campanhas de investigação geotécnica já feitas em um empreendimento metroviário no país. A topografia da cidade também impôs desafios: como os trens operam com rampas limitadas a até 4%, o traçado precisou buscar profundidades maiores nas regiões mais elevadas, tornando a Linha 6 a mais profunda do Brasil, com estações a quase 70 metros abaixo da superfície.
Duas tuneladoras, dois métodos
A escavação dos túneis principais, explica a Acciona, foi feita por duas tuneladoras EPB (Earth Pressure Balance), cada uma com mais de 2 mil toneladas e 109 metros de comprimento, adaptadas a condições geológicas diferentes: uma para solo, na zona sul, e outra para rocha, na zona norte. Ainda segundo a empresa, a tuneladora da zona sul chegou a bater um recorde ao escavar 41,3 metros em 24 horas, em outubro de 2024.
Já estações, poços e trechos específicos foram construídos pelo método NATM, incluindo a maior caverna metroviária já executada por esse método no Brasil, com cerca de 600 m². Todo o processo foi apoiado pela metodologia BIM, que antecipou dados de projeto e ajudou a evitar retrabalhos de alto custo.

Solos heterogêneos e a estação mais profunda da América Latina
A Acciona explica que o traçado divide-se em duas realidades geotécnicas: rocha ao norte do Rio Tietê, com falhas geológicas, e solos sedimentares ao sul, onde as grandes profundidades trouxeram alta pressão hidrostática. Nesse contexto está a Estação Itaberaba – Hospital Vila Penteado, que a empresa aponta como a mais profunda da América Latina, com 67 metros.
Conforme relata a empresa, sua execução envolveu sondagens de até 80 metros, reforço do solo com colunas de Jet Grouting, drenagem a vácuo para controle do lençol freático e, a partir dos 35 metros, detonações controladas em camada de granito, tudo acompanhado por monitoramento geotécnico contínuo.
Um projeto também social
Para a Acciona, a Linha 6-Laranja não representou apenas um desafio de engenharia. A implantação de uma infraestrutura dessa magnitude em uma região densamente urbanizada exigiu gestão permanente do relacionamento com moradores, comerciantes, instituições de ensino, hospitais e demais usuários do espaço urbano. Paralelamente, a empresa afirma ter incorporado ao projeto iniciativas voltadas à geração de emprego e renda, à valorização da mão de obra local e à ampliação da participação feminina na construção civil.
Interferências, achados arqueológicos e gestão de riscos
Construir em uma cidade com quase 500 anos de ocupação também trouxe imprevistos, relata a Acciona. Apesar de meses de estudos geotécnicos, sondagens e mapeamento em BIM, surgiram situações como redes não cadastradas que precisaram ser realocadas em tempo real, fundações antigas em posições inesperadas e variações de solo que exigiram ajustes imediatos, como no caso da estação Higienópolis-Mackenzie.
Houve também descobertas arqueológicas, caso da futura estação 14 Bis-Saracura, que levou a obra a ser interrompida para atuação conjunta com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), autarquia federal responsável pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. Para lidar com esse tipo de situação, a empresa estruturou um Sistema de Gestão de Riscos, premiado pelo InovaInfra 2025, que integrou equipes multidisciplinares e ferramentas tecnológicas para antecipar riscos construtivos.
A Acciona destaca ainda que sua experiência global — mais de 600 quilômetros de túneis construídos em diferentes países — foi determinante para lidar com esses imprevistos e tomar decisões rápidas diante de situações críticas.

Tecnologia como diferencial
Entre as soluções digitais empregadas, segundo a Acciona, o BIM segue atualizado continuamente para consolidar o as-built e servir de base para um futuro Digital Twin da operação. O Centro de Controle de Tuneladoras (CCT) processa em tempo real dados das TBMs para apoiar decisões mais ágeis, enquanto o Centro de Controle Digital de Segurança e Saúde Ocupacional usa inteligência artificial para antecipar riscos ocupacionais.
A empresa cita ainda a aplicação de IA no monitoramento geotécnico, por meio de soluções de geoRISCO, que ajudam a antecipar o comportamento do maciço e das edificações vizinhas — monitoramento que, segundo a Acciona, funciona de forma automatizada 24 horas por dia, permitindo agir assim que qualquer parâmetro de segurança sai do esperado.
Construir pensando em décadas de operação
Para a Acciona, o modelo de concessão muda a lógica das decisões técnicas: como a empresa também será responsável pela operação por cerca de 19 anos, cada escolha considera o ciclo de vida completo do projeto, e não apenas o menor custo de construção.
Sistemas como o CBTC de sinalização e os trens com tecnologia embarcada foram definidos visando à confiabilidade e ao menor custo de manutenção no longo prazo.
Com 633 mil passageiros previstos por dia, a expectativa da empresa é entregar um serviço com alta disponibilidade e pontualidade ao longo de toda a concessão.

